Artistas do Cariri atravessam sertões em residência artística na Serra da Capivara

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Selecionados pelo IV Edital de Residências e Intercâmbios Artísticos do Centro Cultural do Cariri, Márcio Silvestre e Borboletícia realizam dez dias de pesquisa e criação no Piauí, em uma experiência que aproxima territórios, memórias e diferentes linguagens artísticas

Entre paredões que preservam registros milenares da presença humana, paisagens da Caatinga e manifestações culturais que continuam atravessando gerações, dois artistas do Cariri cearense vivem, neste mês de agosto, uma experiência de pesquisa e criação na Serra da Capivara, no Piauí. O roteirista e realizador audiovisual Márcio Silvestre e a poeta e performer Borboletícia foram selecionados para uma imersão de dez dias na Residência Artística Capivara, na cidade de Coronel José Dias, no Piauí.

A experiência integra o IV Edital de Residências e Intercâmbios Artísticos do Centro Cultural do Cariri 2026, nas modalidades Flecha-Audiovisual e Flecha-Literatura, destinadas a artistas nascidos e residentes nos 29 municípios do Cariri. A iniciativa, que acontece em parceria com a Residência Artística Capivara pelo segundo ano consecutivo, busca ampliar o intercâmbio com produções e instituições de outros territórios do país, proporcionando aos participantes novas referências para seus processos de criação. A residência acontece durante todo o mês de agosto de 2026, iniciando na cidade de Coronel José Dias, no Piauí, e encerrando com vivências, pesquisa e a partilha social no Cariri cearense.

Na Serra da Capivara, os residentes percorrem uma programação que extrapola os limites dos sítios arqueológicos. Além das visitas ao Parque Nacional e da observação das pinturas rupestres e das paisagens da Caatinga, a imersão inclui museus, ateliês, projetos sociais, fábrica de cerâmica, comunidades quilombolas e encontros com artistas e personalidades locais. A programação de agosto permite ainda acompanhar manifestações contemporâneas do território, como a Festa Literária da Serra da Capivara (FLISC) e os Festejos do Divino no Sítio do Mocó.

Um sertão contemporâneo

Selecionado na modalidade audiovisual, Márcio Silvestre parte de uma investigação sobre as narrativas sertanejas e sobre as relações construídas entre as populações e o território que habitam. Natural do Crato, o roteirista desenvolve uma pesquisa que aproxima dois espaços separados por centenas de quilômetros, mas atravessados pela Caatinga e por elementos culturais comuns: a Serra da Capivara, no Piauí, e a Serra do Catolé, onde está localizado o Horto do Padre Cícero, no Cariri cearense.

“Essa experiência na Serra da Capivara tem sido singular para o meu processo de escrita. Tenho observado a paisagem não apenas como cenário, mas como um agente que interfere na maneira como as pessoas vivem, constroem relações, elaboram suas crenças e contam suas histórias. Interessa-me entender o povoamento, os ritos e as manifestações culturais a partir das pessoas que continuam produzindo esse território no presente”, explica.

A investigação integra o processo de pesquisa do roteirista para seus projetos autorais e, particularmente, para a série Água Benta Milagrosa, comédia dramática ambientada no Cariri que acompanha uma família envolvida com a comercialização fraudulenta de água benta durante a romaria de Nossa Senhora das Candeias. A residência permite ampliar o repertório utilizado na construção desse universo ficcional, colocando em diálogo religiosidade popular, sobrevivência, relações familiares e as transformações vividas pelo sertão contemporâneo.

“Em Água Benta Milagrosa, estou interessado em personagens que pertencem profundamente ao sertão, mas que não estão presos a uma representação do passado. São pessoas atravessadas pela fé e pela tradição, ao mesmo tempo em que lidam com dinheiro, desejo, tecnologia, consumo e as contradições do presente. Estar aqui me permite observar como esses elementos convivem na vida real e encontrar novas camadas para a construção desse imaginário”, afirma Márcio Silvestre.

O processo também dialoga com uma produção audiovisual recente interessada em atualizar as representações do interior nordestino. Entre as referências pesquisadas estão a série Cangaço Novo (2023), dirigida por Fábio Mendonça e Aly Muritiba, que desloca elementos do imaginário do cangaço para conflitos contemporâneos; o longa piauiense Ai que Vida! (2008), de Cícero Filho, marcado pelo cotidiano e pelas relações sociais do interior; Deserto Particular (2021), de Aly Muritiba, que atravessa o país até chegar ao sertão baiano; e Paloma (2022), dirigido por Marcelo Gomes e escrito por Gomes, Gustavo Campos e Armando Praça, que articula religiosidade, identidade e vida rural.

“O que procuro não é uma definição fechada de quem é o sertanejo de hoje, mas repertório para construir personagens que carreguem as permanências e as transformações desse território. A Caatinga, a oralidade, a religiosidade e os modos comunitários permanecem, mas coexistem com outras referências e desejos. É justamente nesse encontro entre tradição e contemporaneidade que a pesquisa de Água Benta acontece”, completa.

Corpo, terra e memória

Na literatura, Borboletícia desenvolve durante a residência o projeto “Caderno-Seiva: fragmentos de corpo, terra e criação”. Natural do Cariri cearense, a artista atua como poeta, performer, escritora, artesã, contadora de histórias, comunicadora popular e educadora ambiental, tendo na oralidade uma das principais ferramentas de seu trabalho.

Sua pesquisa parte da imersão na Caatinga piauiense para estabelecer relações entre território, memória e ancestralidade, aproximando as experiências encontradas na Serra da Capivara das próprias referências construídas no Cariri.

“A vivência tem sido um processo imersivo na Caatinga piauiense e na própria história do nosso povo, tanto enquanto território afetivo que nos faz nordestinos como enquanto ocupantes desse planeta desde tempos pré-históricos. Estudar nosso passado através das histórias contadas nas pedras e perceber as diversas semelhanças que ligam o Cariri ao Piauí tem sido enriquecedor para construir um processo poético embasado na nossa própria história”, destaca Borboletícia.

Ao longo dos dez dias, as experiências são transformadas em registros para a construção de um caderno poético processual, articulando aquilo que a artista encontra no território às próprias memórias e experiências. O percurso deverá desembocar também em uma performance poética, ampliando a pesquisa da escrita para a oralidade.

“Nunca somos os mesmos de ontem, nem seremos os mesmos de amanhã. Nós nos construímos todos os dias a partir dos encontros e dos olhares. Essa experiência tem me feito, e certamente fará, uma artista da palavra mais sensível, mais corajosa e mais criativa”, afirma.

Intercâmbio entre territórios

A residência aproxima o Cariri cearense do Piauí, promovendo o encontro entre territórios e processos criativos. As experiências acumuladas durante a imersão passam a integrar pesquisas que retornam ao Cariri transformadas em literatura, audiovisual, oralidade e novos modos de interpretar o próprio lugar de origem.

“A presença de Márcio Silvestre e Borboletícia no programa de Residência Artística Capivara representa não apenas a chegada de dois artistas com trajetórias potentes e múltiplas, mas a ativação de um campo sensível de criação, afeto e insurgência entre os polos culturais nordestinos. Suas práticas artísticas ecoaram o chamado da terra, das memórias silenciadas e das forças invisíveis que habitam os sertões do sudeste do Piauí. A Residência se afirma, com essa experiência, como espaço de provocação poética, política e coletiva, e reconhece na parceria com o Centro Cultural Cariri, uma contribuição preciosa para a construção de uma arte comprometida com a escuta, o cuidado e a presença”, destaca Tininha Llanos, diretora da Residência e membro da comissão técnica do IV Edital de Residências e Intercâmbios Artísticos.

A Residência Artística Capivara é parceira do Programa de Residências do Centro Cultural do Cariri e recebe artistas do Cariri pelo segundo ano consecutivo. A iniciativa é realizada pelo Centro Cultural do Cariri, equipamento da Secretaria da Cultura do Ceará, gerido em parceria com o Instituto Mirante.