Modelo entra na Justiça após fazer cirurgia no maxilar e ficar com pernas queimadas, em Fortaleza

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O investimento da modelo cearense Monique Lopes, 31 anos, por melhorias estéticas causou prejuízos: ela fez uma cirurgia no maxilar em junho de 2021, mas ficou com queimaduras nas pernas, nariz torto e abalo emocional. Pouco mais de um ano depois do procedimento, a rotina da paciente ainda não voltou à normalidade, e ela pede, na Justiça, indenização de cerca de R$ 864 mil por danos materiais, morais e estéticos.

“Até hoje, só eu sei o que passei com essa cirurgia. Pra mim, foi um baque na minha vida. Hoje, não sinto dores, mas tô sofrendo com consequências psicológicas”, afirmou Monique.
O cirurgião-dentista que fez o procedimento, Sormani Bento Queiroz, afirmou ao g1 que a paciente teve um “problema na perna” que “está para ser esclarecido” e que apresentará uma proposta de acordo em audiência de conciliação.

Busca por melhorias estéticas
Monique relatou que, em 2021, buscou um dentista para aplicação de lentes na arcada dentária. No entanto, o profissional sugeriu uma cirurgia ortognática em razão de a modelo precisar corrigir a mordida, indicando Sormani Bento Queiroz para o procedimento.

Seguindo a sugestão do dentista, a paciente marcou consulta e foi atendida pelo profissional pouco tempo depois. Conforme relatou, tudo aconteceu “muito rápido” — ela precisava voltar para a Europa e disse não se importar com valores. Monique afirmou ter pagado R$ 25 mil pela cirurgia, ocorrida no dia 23 de junho de 2021 no Hospital Uniclinic, em Fortaleza.

No mesmo dia do procedimento, a modelo acordou sentindo dores nas pernas, mas não percebeu os ferimentos no momento em razão de os membros estarem enfaixados. Ainda segundo Monique, os médicos a convidaram para uma conversa no dia seguinte.

A modelo contou que os profissionais envolvidos na cirurgia questionaram se ela possuía “algo” em seu corpo, e a paciente disse possuir próteses de silicone. Em seguida, os dois questionaram o porquê de essa informação não ter sido repassada, e a paciente afirmou não ter sido indagada sobre o assunto, segundo relatou ao g1.

“Quando ele veio me perguntar: ‘Monique, por que você não falou que tinha silicone?’, se eu não falei foi porque não me perguntaram. Se eu tivesse assinado alguma coisa afirmando que eu tinha algum procedimento, por que ele operou?”, questionou. “Já que ele disse que se soubesse que eu tinha silicone, nunca teria operado, por que não me perguntou? […] Eu teria falado. Eu jamais teria operado se eu soubesse que isso iria acontecer.”

Pós-cirurgia
Segundo consta no processo judicial, a paciente recebeu alta para a enfermaria no mesmo dia da cirurgia, onde fez curativos e foram constatadas queimaduras. Além disso, o documento cita danos no nariz da paciente, que ficou torto, segundo ela, após o procedimento.

Quatro dias depois, em 27 de junho de 2021, a modelo recebeu alta hospitalar, mas seguiu com dores e buscou assistência médica.

A paciente afirmou que, em razão das dores, tinha dificuldade de realizar atividades domésticas e necessidades fisiológicas. “Foram praticamente três meses de sofrimento. Eu não conseguia andar. Ia ao banheiro e voltava, pois não conseguia ficar em pé. Não conseguia dirigir nem nada”, lembrou, acrescentando ter ficado sob cuidados da mãe.

A continuidade das dores a motivou a voltar ao médico em busca de um tratamento. Segundo Monique, Sormani teria sugerido uma cirurgia plástica para reparar os danos na perna, mas o médico indicado pelo cirurgião-dentista examinou a perna da modelo e disse que ela iria se recuperar sem o procedimento.

A modelo, então, resolveu buscar o cirurgião-dentista novamente para obter pelo menos alguma melhoria na face. “Até o primeiro mês, a preocupação eram minhas pernas, aí depois eu vi que meu nariz não estava desinchando e continuava torto”, disse Monique. “‘Doutor, as minhas pernas eu pelo menos consigo esconder com uma calça, mas o nariz é no meu rosto, as pessoas vão ficar rindo de mim na rua'”, ressaltou a modelo ao cirurgião-dentista, que teria optado por uma nova tentativa, conforme relatou.

Novo procedimento
Acompanhada da mãe, Monique foi ao encontro do médico em outro momento cerca de um mês depois da operação inicial. De acordo com ela, o profissional fez uma aplicação de anestesia local e o procedimento foi muito doloroso.

“Eu nunca vou esquecer disso. Eu gritei com minha mãe segurando a minha mão e sentia o nariz estralando […] “Como que uma pessoa faz uma cirurgia e deixa um ser humano totalmente machucado assim? Ele me deixou totalmente machucada, da cabeça aos pés, e na minha alma.”
Indenização
Embora tenha recebido alta, a paciente afirmou ter ficado impossibilitada de trabalhar, pois atua no segmento da beleza. Segundo os autos do processo, entre o período após o dia da cirurgia e 29 de outubro de 2021, Monique gastou cerca de R$ 185 mil em remédios, serviços e tratamentos para diminuir os danos da cirurgia.

A modelo pede a devolução do pagamento feito ao hospital, além de indenização pelos danos morais, estéticos e financeiros, dado o tempo sem trabalhar após o ajuizamento da ação. Os valores superam R$ 864 mil.

A paciente também pede o pagamento das despesas necessárias para futura cirurgia reparadora e demais procedimentos estéticos, terapêuticos e psicológicos. “Nem por R$ 1 milhão eu passaria pelo que eu passei, se eu pelo menos sonhasse com isso na minha vida”, afirmou a modelo.

Conforme o portal e-SAJ, do Tribunal de Justiça do Ceará (TJCE), uma audiência de conciliação está prevista para o dia 9 de agosto de 2022. No processo, contudo, os advogados indicam que a modelo não tem interesse na realização da audiência. O caso não foi registrado em Boletim de Ocorrência.

Cirurgião-dentista diz que não foi erro
O g1 entrou em contato com o cirurgião-dentista Sormani Bento Queiroz e com o anestesiologista Albert Espíndola de Sá, envolvidos no procedimento, além do Instituto de Estudos e Serviços Odontológicos (Ieso) e o Hospital Uniclinic acerca do caso.

O cirurgião dentista responsável pela cirurgia, disse que ainda não havia constituído advogado no processo e que “estranhou muito a situação”. Com 30 anos de atuação, o profissional afirmou que “logicamente ocorreu um problema”, mas ressaltou que não foi um erro.

Segundo o profissional, ele realizou uma cirurgia ortognática, mas a paciente ficou com um “problema na perna” que “está para ser esclarecido” e que “poderia ser uma infecção”, a qual “não tem relação com o procedimento”. O cirurgião-dentista avaliou, então, esperar que o quadro da modelo se estabilizasse para seguir um tratamento.

Questionado sobre o processo de realização da cirurgia, o cirurgião dentista apontou que solicita exames pré-operatórios antes de uma nova consulta, na qual chega ao diagnóstico e dá orientações aos pacientes. Estes só assinam termo de compromisso quando a operação é realizada em hospital.

Segundo o cirurgião-dentista, ele se colocou “o tempo todo” à disposição da modelo, tendo passado três meses conversando com ela diariamente sobre o assunto e assumido as despesas relativas a medicamentos e cuidados terapêuticos. Questionado sobre quais seriam esses cuidados, ele citou especialista em feridas e fisioterapia e afirmou ter pagado valores diretamente aos profissionais responsáveis pelos serviços.

O cirurgião-dentista informou ainda que não tem consciência dos gastos da paciente e que não recebeu pela cirurgia — o valor foi pago diretamente ao hospital, e ele não recebera honorário. Ele acrescentou, ainda, que apresentará uma proposta em audiência de conciliação.

A proprietária do Ieso, doutora Laura Carvalho, afirma que o instituto “não tem conhecimento sobre o caso e como foi conduzido”, já que o procedimento não foi realizado nas dependências da unidade.

Conforme Laura, o Ieso é um complexo odontológico que faz contratos de aluguel de algumas salas e consultórios com profissionais da área da odontologia. O cirurgião dentista teria uma “relação de aluguel ‘apenas'”.

O g1 também buscou o Hospital Uniclinic por telefone e por e-mail, mas não recebeu retorno. Já o médico anestesiologista, Albert Espíndola, afirmou não ter “muito o que falar” e não ter sido comunicado sobre o processo, descoberto por ele por meio do cirurgião-dentista.

Conforme o médico, a atuação dele se resumiu à de anestesista do procedimento, no qual a anestesia ocorreu “sem intercorrência alguma”. O profissional preferiu não cometar sobre o caso.

Conselho Regional
O Conselho Regional de Odontologia do Ceará (CRO-CE) afirmou que o cirurgião-dentista pode realizar tal procedimento.

Questionada sobre quais seriam os riscos de uma intervenção desse tipo e do que a cirurgia se trata, a entidade respondeu que “não é um órgão consultivo à sociedade para questões de naturezas técnicas, devendo as demandas éticas serem protocoladas em forma de denúncia”.

Além disso, o CRO-CE também não respondeu qual deveria ser a conduta dos profissionais envolvidos, nem quais os procedimentos adequados para preparo, realização e recuperação da cirurgia.

Ao ser perguntada sobre o que a paciente poderia fazer em relação ao caso, a instituição informou que, “qualquer demanda relacionada a questões éticas no relacionamento do paciente com o profissional, o CRO-CE acolhe a denúncia do paciente”. Esta será analisada e poderá provocar a abertura de um processo ético, que ocorre sob sigilo, segundo a entidade.

Foto: Arquivo pessoal / Fonte: G1 CE

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