Mães cearenses relatam dificuldades e desafios após perderem emprego durante a pandemia

Sendo as provedoras de seus lares, mulheres que perderam a principal fonte de renda durante a crise sanitária causada pela pandemia de Covid-19 se veem obrigadas a buscar novas formas de sustentar a família enquanto atendem às necessidades dos filhos. No caso de Zenilde Pires, 62, a atenção é dividida entre três filhas-netas.

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Ela assumiu o cuidado após a filha caçula, mãe biológica das meninas, adoecer. Ela faleceu no fim de 2019, e as jovens Sara, 21, Clara, 16, e Nara, 14, continuaram morando com a avó. A pandemia veio poucos meses depois e fez desparecer a estabilidade do emprego que Zenilde mantinha há 17 anos, em um salão de beleza. Após três meses em isolamento, ela recebeu uma ligação informando que seus serviços não seriam mais necessários.

“Eu desabei. Liguei para a dona pra questionar, só que não tinha carteira assinada, nem nada, era só um contrato, como se eu ‘alugasse’ o espaço”, lamenta. Um mês depois da demissão, ela soube que a administração do salão não conseguiu mantê-lo, e o estabelecimento fechou as portas definitivamente.

Com as meninas em casa, sem aulas presenciais no colégio nem na faculdade, algumas despesas aumentaram, e Zenilde precisou buscar outros caminhos.

“Como eu mexo com bolo e essas coisas, pensei que o jeito era começar dessa maneira. Há duas semanas eu montei uma banca em frente à casa da minha mãe e comecei a vender.

É bolo e torta de frango. No primeiro dia não rendeu muito, porque ninguém sabia, não tinha como eu divulgar. Mas nesse domingo vou montar de novo, de 10h30 até 18h. É só nos fins de semana”, conta.

Nos demais dias, ela se dedica aos cuidados da própria mãe, de 89 anos, que já não consegue andar devido a complicações de saúde. No pouco tempo livre que resta, Zenilde atende antigas clientes em domicílio, como forma de complementar a renda; e ainda se prepara para novas possibilidades de forma autônoma.
“Como minhas irmãs me deram muitas roupas, vou poder montar um bazar. Eu sempre gostei disso, então vou montar pra ver se arrecado alguma coisa. Vai ser nesse mês ainda, se eu conseguir arrecadar mais coisas. As meninas me ajudam, elas vão comigo de manhã”, revela.

“Precisa de muita força e muita fé. Tem hora que eu penso que não vou aguentar mais. Mas eu vou conseguir, se Deus quiser”.

Foi também depois de março que Maria Lucimar Ferreira, 40, se viu sem o trabalho que lhe garantia o sustento. Ela trabalhava como empregada doméstica em Fortaleza, mas seus serviços foram dispensados logo no começo de abril. Nessa época, ela já convivia com sintomas da Covid-19.
“Eu fiquei em casa a partir de 19 de março, por conta da pandemia, pra não ter contato. Aí a família pra quem eu trabalhava também ficou isolada num sítio.

Depois eles disseram que não ia mais dar certo, porque não tinham condições de me pagar. Tinha uma babá que estava morando com eles, e iam ficar só com ela”, lembra Maria.

Em casa, ela passou dias isolada no quarto para evitar que o filho Railson, 17, e a filha Raniele, 20, se contaminassem também. Depois, a preocupação voltou-se inteiramente ao sustento.

“Eu consegui o auxílio [emergencial], só que antes eu estava me virando fazendo outras coisas, vendendo em casa, fazendo bolo, salgado, essas coisas que a gente tem que inventar”, diz.

Agora, ela parou as vendas para se dedicar a um trabalho temporário, substituindo uma colega que está de licença-maternidade. “Depois disso, só Deus sabe o que eu vou inventar”. “Ainda tenho algumas parcelas do auxílio pra receber, e também sei fazer unha, estou com duas faxinas para fazer nos fins de semana. Eu ‘tô’ me virando, só não quero ficar parada”, afirma.

Participação na economia

Zenilde e Maria vivem uma realidade que se observa, também, em números. A população, em geral, sofreu uma queda na taxa de participação na economia durante a crise do coronavírus, mas foram as mulheres – em especial, as que vivem com crianças de até 10 anos – que receberam o impacto de forma mais brusca.
A explicação é feita por Marcos Hecksher, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea). Ele detalha que a taxa de participação, por grupo populacional, mede a porcentagem de pessoas com 14 anos ou mais que estejam trabalhando ou procurando trabalho. Recentemente, foi comparado o segundo trimestre de 2020 a igual período de 2019.

“No Ceará, a taxa dos homens foi de 65,7 pontos percentuais em 2019 para 57,4 em 2020. Esse número caiu 8,3 pontos. No caso das mulheres, o número foi de 47,7 para 38,9, com uma queda de 8,8 pontos. Nota-se que mesmo antes da pandemia, a maioria das mulheres do Ceará já estava fora do mercado de trabalho. Menos de 50% estava no mercado, e caiu ainda mais que os homens”, observa o pesquisador.
Já para as mulheres com crianças de até 10 anos, especificamente, a taxa parte de um nível um pouco mais alto. Contudo, a queda é maior. O grupo foi de 50,3 pontos percentuais, no ano passado, e reduziu para 40,8 em 2020, o que representa uma queda de 9,5 pontos.
“Na pesquisa que nós utilizamos para fazer isso, que é a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, a taxa atual das mulheres é a menor da série histórica. Desde 2012, que foi quando começamos essa série, não tem nenhuma taxa menor do que essa, no caso do Ceará”, ressalta Hecksher.
Segundo ele, as mulheres sempre tiveram uma taxa de participação menor que a dos homens, mas, ao longo dos anos, vinha sendo observada uma lenta convergência. “Ia ficando cada vez menos distante. Só que a pandemia foi um golpe no sentido contrário, porque ela fez cair ambas as taxas, mas caiu mais a das mulheres. A diferença ficou maior ainda”.

Para a professora da Universidade Federal do Ceará (UFC), Cristiane Aquino, doutora em Direitos Fundamentais, essa diferença faz parte de um ciclo. Ela reforça o fato de que a situação de crise fragiliza os direitos das pessoas que já estão em desvantagem no mercado de trabalho, ampliando as disparidades.

“Eu acredito que exista, sim, uma influência do machismo. Há muitas diferenças culturais, de um local para outro, em termos da concepção do papel da mulher na sociedade. Então eu creio que no Nordeste, e no Ceará, especificamente, isso talvez aconteça de forma mais notável. Embora o machismo exista em todos os lugares, em maior ou menor grau”, pondera.

Alternativa

Aquino enfatiza que o empreendedorismo tem crescido entre as mulheres como uma forma de viabilizar a inserção laboral, em paralelo ao “contexto formal” que geralmente descrimina. “É uma alternativa. E muitas vezes elas se apoiam e se ajudam nesse meio autônomo”, pontua.

Por outro lado, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada tem feito uma proposta para melhorar a situação para o grupo mais prejudicado. Trata-se de exonerar as jornadas de trabalho mais curtas. “O Congresso agora está discutindo se vai estender uma exoneração que torna mais barato contratar pessoas de 17 setores da economia. Mas esses setores não são os que mais empregam, não são os mais afetados pela economia, e nem são os que mais vão ajudar na recuperação. São setores que já estão beneficiados”, explica Marcos Hecksher.

“O que eu acho que poderia ser feito é manter essa exoneração, esse desconto, para quem já está contratado. A empresa não vai ter nenhum aumento de carga com um trabalhador que já está contratado”, acrescenta. Assim, para quem a empresa vier a contratar a partir dessa medida, a exoneração seria para todos os setores, só que concentrada em contratações que fossem de até 36 horas de trabalho semanais. No caso de contratações de até 20 horas, ficaria zerada a contribuição da empresa para a previdência do trabalhador. “O Governo é que pagaria pela empresa”.

A ideia proposta pelo Ipea é de tornar mais barato para a empresa contratar duas pessoas por 20 horas semanais, ao invés de contratar um único funcionário para trabalhar 40 horas.
“Assim, a empresa vai ter vantagem em contratar mais pessoas, dividindo as horas entre elas, e quem mais vai se beneficiar disso são as mulheres, porque elas já são as que mais utilizam jornada parcial frequentemente. Todo mundo que está desempregado poderia se beneficiar, mas as mulheres poderiam ser mais beneficiadas”, avalia o pesquisador.

Foto: José Leomar

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Fonte: Portal G1 CE

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