Na pandemia, CE teve o 4º maior excesso de mortes naturais no País

Todos os anos, o número de mortes naturais, provocadas, em geral, por doenças, tem aumento no Brasil. Um dos fatores é o envelhecimento da população. Em 2020, com a pandemia, se pressupõe que a quantidade desse tipo de perdas será elevada. Mas, já há cálculos que estimem quantas mortes se terá a mais no País? Ou mesmo, se a pandemia é responsável sozinha pelo acréscimo?

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Para projetar o chamado excesso de mortalidade, o Conselho Nacional de Secretários de Saúde (Conass) lançou, este mês, um painel com estimativas considerando a média dos últimos cinco anos. No Ceará era estimadas 15.843 mortes naturais entre 15 de março e 4 de julho (semanas epidemiológicas 12 a 27). Mas, no período analisado, o Estado registrou 25.539 óbitos. O excesso de mortes é de 61%, quarta maior taxa do Brasil.

Para além dos lutos particulares, qual o impacto dessas perdas? Conforme o Conass, acompanhar os indicadores de morte é uma estratégia recomendada pela Organização Mundial de Saúde para que, em momentos como este, seja possível avaliar os efeitos diretos e indiretos da crise sanitária. Isto porque, embora se pressuponha que a infecção por coronavírus seja a causa direta do excesso de mortalidade, há outras possibilidades como: aumento dos óbitos naturais provocados pela sobrecarga nos serviços de saúde, pela interrupção de tratamento de doenças crônicas ou até mesmo pela resistência de pacientes em buscar hospital durante a pandemia. Conforme a análise do Conass, somente Amazonas (95%), Roraima (76%) e Maranhão (67%) tiveram índices proporcionais maiores que o Ceará.

“O excesso de óbitos é ruim porque, em alguns casos, as pessoas morreram sem a gente ter um diagnóstico. Qual o grande desafio do SUS? É dizer porque as pessoas morrem. Porque se eu não sei de que morre minha população, eu não posso propor políticas públicas para evitar isso”, explica o epidemiologista e professor da Universidade Federal do Ceará (UFC), Luciano Pamplona. Ele acrescenta que “além dos óbitos confirmados de Covid, se a gente pegar o mesmo período de anos anteriores, ainda teve mais óbitos que deveria ter tido. Isso chamamos de excesso de óbitos”. O cálculo feito pelo Conass considerou a série histórica de óbitos no Brasil entre 2015 e 2019, com dados do Sistema de Informação de Mortalidade (SIM) do Ministério da Saúde. Não foram incluídas as mortes por causas externas, como os acidentes e as violências.

Com base nos dados foi estabelecida a expectativa para 2020. As informações são comparadas com os registros deste ano que constam no Portal de Transparência do Registro Civil, administrado pela Associação Nacional dos Registradores de Pessoas Naturais (Arpen-Brasil).

Para compará-los é aplicado um fator de correção pois são duas bases de dados distintas. O ponto de partida é o registro da primeira morte por Covid-19 no País (na semana epidemiológica 12). A última alteração foi dia 11 de agosto e a plataforma continuará sendo atualizada, segundo o Conass.

Efeito
A epidemiologista já foi coordenadora da Organização Pan Americana da Saúde (Opas) e é consultora-sênior da organização global de saúde pública Vital Strategies, Fátima Marinho, reitera o que é esse excesso: “Todo ano você tem no Brasil, mais ou menos, 1.300.070 mortes, incluindo todas as causas, como homicídios, acidentes. Então, todo ano a mortalidade aumenta um pouco porque as pessoas vão ficando mais velhas, tem uma redução nos grupos mais jovens, mas há uma mortalidade mais ou menos instável. Aquilo que se espera para o próximo ano. Eu tenho mais mortes acima do que se esperava para esse período”.

Ela reforça que é fundamental para o poder público ter conhecimento desses dados pois, a partir deles, autoridades podem planejar as ações de saúde de modo a “retomar a mortalidade para o nível esperado em cada região”. “Para os gestores é um importante indicador a ser acompanhado. Porque eu vou monitorando a mortalidade até que ela, pelo menos, volte ao nível mais baixo. Se ela estiver crescendo, eu tenho que ficar em alerta, porque significa que meu sistema de saúde não está dando conta. Não dá conta nem da Covid, nem dos outros casos”, acrescenta.

Além disso, Fátima relata que embora haja uma atribuição das mortes à Covid, não se pode perder o foco das outras doenças fatais.

“A pandemia se estendeu por um prazo muito longo. Então, quando você adiou consultas de doenças crônicas, das grávidas, adiou procedimentos, as pessoas doentes começaram a piorar a situação de saúde Muitos deixaram de ir ao hospital com medo”, reforça.

Em junho, o Diário do Nordeste mostrou que em Fortaleza, a redução de atendimentos de pacientes nas emergências de seis grandes hospitais públicos foi de 33,35% entre março e maio deste ano. São pessoas vítimas de AVC, de acidentes, de hemorragias, de quedas, dentre outros.

A coordenadora de Vigilância Epidemiológica e Prevenção da Secretaria da Saúde do Ceará (Sesa), Ricristhi Gonçalves, explica que existem várias ferramentas na epidemiologia que ajudam a entender se está ocorrendo excesso de casos ou de óbitos por qualquer doença. Nesse caso, do Conass é uma análise baseada em uma série histórica. Isto, segundo ela, está sendo muito discutido para tentar entender o que pode estar ocorrendo nos diversos estados.

“O que isso quer dizer? Você vai olhar para os dados e ver a curva no Brasil que está muito superior. A gente já superou o número de mortes estimadas para 2020. Não estamos dizendo quais são as causas. Estamos falando de forma geral. Ele (painel) não atribui a nenhum agravo, a nenhuma doença. Mas mostra que o número já foi superado em algumas regiões. No Ceará já observamos isso. Tem alguma relação com a pandemia? Provavelmente sim. Quando a gente olha para as curvas de óbitos de Covid, elas estão muito parecidas com o que está sendo visto no excesso de mortalidade”, esclarece.

Utilidade

Ela acrescenta que mensurar esses dados é útil para a gestão pública, sobretudo, em regiões nas quais a curva de óbitos não está parecida com a curva da Covid, o que não é o caso do Ceará. Além disso, reforça, é importante para as políticas de saúde, pois, se óbitos são monitorados, e há um excesso, garante ela, “é preciso ver tudo o que está acontecendo em relação à atenção à saúde e se está havendo alguma falha nesse sentido”.

Ricristhi pondera que um óbito “diz muito. Ele conta a história, se a pessoa teve acesso ao serviço de saúde, se ela não foi. Ele dá uma série de informações. E não queremos esperar um aumento”. Ao contrário, segundo ela, as gestões da saúde, trabalham para ter o número esperado para aquele período. “Quando esse número supera, é preciso uma política urgente para tentar saber o que está acontecendo e compor estratégias para a redução”, finaliza.

Foto: Paulo Alberto

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Fonte: Diário do Nordeste

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