Pesquisadores do Brasil e Portugal investigam naufrágio no Ceará

Nenhuma história tem um fim em si. Quatro anos após o último mergulho no naufrágio que ficou conhecido como “Barco do Acaraú”, numa referência ao município onde descansam seus destroços, as suspeitas de que se trataria do Iate Palpite, com um pé na história do 2º Reinado no Brasil, atraíram mais olhos interessados, agora de além-mar. Pesquisadores de Portugal se somam a estudiosos do Ceará e Piauí na investigação.

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Quatro anos após a primeira expedição, em 2016, nossa reportagem voltou ao mar para acompanhar mais uma operação e mergulhou no sítio arqueológico a apenas 2 km da costa: uma embarcação de madeira pouco conservada pelo tempo de onde muito foi saqueado, mas que sobraram objetos metálicos, como âncora, correntes, caldeira e muitas histórias. Os destroços espalhados numa extensão de 50 metros são, há mais de um século, a casa de uma diversidade de peixes, inclusive tubarões. Nadamos com eles.

O primeiro mergulho foi na possível história da embarcação: tratar-se daquela que levaria os estudos do mineralogista Guilherme de Capanema, um dentre os cientistas notáveis que realizaram expedição entre 1859 e 1861 pelo Brasil – na prática, limitaram-se ao Ceará – em busca de conhecimento e, suspeitava-se, de ouro, uma curiosidade de D. Pedro II, idealizador da comissão científica.

Mau tempo
A embarcação naufragou pouco após deixar o rio Acaraú e entrar no mar rumo a Fortaleza. O historiador e botânico Renato Braga relatou o episódio um século depois, partindo de uma notícia publicada no Diário Granjense: “Barco foi a pique ao amanhecer do dia 13 de março, na altura da Barrinha, ao sul da foz do Acaraú, quando navegava de Granja para a Capital, carregado de madeira. Afundou-o um aguaceiro pesado, acompanhado de forte ventania. Com ele se foram os volumes embarcados por Capanema”.

Um mês após o ocorrido, o próprio Capanema descreveria sua chateação ao amigo escritor e poeta Gonçalves Dias: “Creio que o mais espantoso caiporismo persegue a Comissão. Ontem, recebi a notícia que 13 ou 15 volumes que eu tinha mandado embarcar na Granja foram a pique, entre eles os meus baús com roupas, aí vinham mais: geologia de toda parte percorrida da província, observações astronômicas feitas desde o princípio até ali, observações meteorológicas e determinações de alturas, 420 páginas com aquela minha letra”.

Pode ter sido o fim daquele material coletado por Capanema, mas era só o início de uma jornada (e novas coletas) sobre o amontoado no fundo do mar, que vai de lendas marítimas, histórias de pescador à investigação científica sobre sua real origem.

A operação mais contundente foi realizada na semana passada, coordenada pelo pesquisador Augusto Bastos, coautor do “Atlas de Naufrágios do Ceará”. Da missão ao “barco de Acaraú” participaram pesquisadores da Universidade Federal do Ceará, Instituto Politécnico de Tomar, em Portugal, operadora Mar do Ceará, Instituto Federal do Ceará e Universidade Federal do Piauí.

“É através das evidências que vamos procurar entender qual a origem dessa embarcação. Contamos com satélites, o mesmo mecanismo que se utilizou a tecnologia para descoberta das manchas de óleo no Nordeste”, explica Augusto Bastos, também responsável pela conexão científica com Portugal.

“Como arqueóloga, tem sido um prazer colaborar com nossos colegas brasileiros na investigação do naufrágio do Palpite. Esperamos que essa colaboração internacional nos leve a voos mais altos”, definiu Alexandra Figueiredo, coordenadora do Laboratório de Arqueologia e Conservação do Patrimônio Subaquático, em Portugal.

Chefiando a investigação arqueológica está Flávio Calipo, oceanógrafo e arqueólogo da Universidade Federal do Piauí, para quem o conhecimento da história dos naufrágios pode mudar a ideia de que se tem no senso comum sobre as peças afundadas. “Esse projeto consegue trazer muita gente interessada em pesquisar, não retirar peças do fundo do mar ou vender, por exemplo”, explica.

Foto: Divulgação

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Fonte: Diário do Nordeste

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